…de redes sociais

14 jan

É verdade. Eu sei, é o primeiro post do blog e pode parecer um pouco pretensioso ou arrogante: não preciso daquilo que todos tem, que é febre, que todos usam. Mas, na verdade, ninguém precisa!

Houve o tempo que os lançamentos tecnológicos surgiam e mudavam a vida das pessoas; eles apareciam aqui ou ali, de uma marca ou de outra. Eram feitos no limiar de uma nova descoberta científica recém chegada à tecnologia. Acho que é a isso que se dá o nome “inovação”. Mas hoje o negócio mudou: aquele recurso que você não usa, não precisa, até mesmo não quer em primeira instância, brota naquele serviço que você usava contente.

Consideremos o início das redes sociais: temos aí um programa desenvolvido para a web, em que todos podem se encontrar, se conhecer e se divertir. Ele funciona bem assim. Mas aí cresce a tecnologia do celular, e a internet se torna portátil. Entra um interessado nessa história social: as operadoras de telefonia. Mas qual a utilidade real de ter internet no bolso? Sim, nós podemos pesquisar coisas e tals (aquela ideia de ‘internet-informação’, semi-utópica). Mas isso não é suficiente, o conhecimento pode me esperar chegar em casa. Logo, apenas “informação” não é um bom atrativo: não haveria consumidores de dados suficientes, e os planos de internet não seriam lucrativos. Ah, é claro! As redes sociais! Não havia valor nenhum, um tempo atrás, em acessar uma rede social no ônibus, por exemplo. E então veio a propaganda: pessoas felizes, compartilhando cada momento em seus tablets ainda caríssimos (preferencialmente da Apple), sentadas em gramados ou praias ao por do sol. Vou dar uma praia pra você se sentar e compartilhar sua felicidade com seu sinal (0,)3G, exclusivo do Brasil.

Praia em Santos.

A campanha maciça “Vamos dar Importância às Redes Sociais” tem uma força incrível. Com a popularidade que alcançou, essas novas terras recém desbravadas se tornaram um meio poderoso para outro viciador-master, os jogos, sobre os quais discorrerei especificamente mais tarde. Eles já tinham seu bom campo, funcionam bem naquele Xbox lindo, PS3 ou talvez PC. Mas um exemplo conta quase toda a história: Zynga. Pra quem não sabe, essa é a empresa que faz o FamVille, o CityVille, o —-Ville, o Mafia Wars… Odeio ser previsível mas, devo dizer, é uma empresa estadunidense. Ela foi fundada em 2007, pleno BOOM das redes sociais, o orkut ainda fazia sucesso e tals, todos tinham BuddyPoke.

Zynga e seu filho mais famoso, o FarmVille.

Os jogos da Zynga são simples, intuitivos, repetitivos e viciantes; eles levam o “co-op” a outro nível ao ligar as redes sociais com os recursos dos jogos. São simples de fazer também, e até crianças podem jogar. Ok. Mas e aí? Essa empresa vale agora mesmo 6,2 bilhões de dólares. É absurdo se você pensar que a EA (do Spore, de SimCity, Mirror’s Edge e lá vai uma lista…) vale menos, 5,95 bilhões de dólares. E eles estão na estrada há muito tempo, inclusive inovando bastante. Parece muito injusto, não acha? Dê uma olhada na qualidade, na beleza, na dificuldade de um jogo produzido por alguém como a EA (também é bastante inútil jogar esses jogos, como os outros. Mas ao menos temos aí milhares de empregados, centenas de desenvolvedores experts que merecem salários altíssimos):

Mirror's Edge e seu lindo le parkour. Já imaginou le parkourar aí?

Portal 2, da Valve. Perfeição. Se houvesse versão leve, em WebGL ou Shockwave, para facebook, enobreceria as redes sociais.

Esse tipo de produção de conteúdo (jogos, música…) da Zynga é também desnecessário. Desnecessário e descartável, porque nivela por baixo. O estímulo ao uso desses produtos (facebook & aplicativos & afins) gera uma tendência, que gera um novo mercado de inutilidades como a Zynga. Listemos a Vostu, empresa brasileira, que produz jogos da mesma categoria.

O ponto é que estão empurrando necessidades que não temos, goela abaixo mesmo. Não precisamos compartilhar “tô cagando”, não precisamos compartilhar nada. Não precisamos passar tardes inteiras na tela do facebook rindo de piadas repetidas, fotos engraçadas (de novo!). Não precisamos nos expor como fazemos, num exibicionismo solitário que beira ao ridículo, exemplificado pelas incontáveis fotos de adolescentes sem camisa e topete mucholoko. Não precisamos de mais estímulos para isso.

Não precisamos de Hangouts do Google Plus, ou de mais horas repetindo assuntos inócuos com amigos que vemos todos os dias.

Mas chega de não precisar dessas redes sociais. Elas têm lá suas pestes mas, como tudo, não são totalmente imprestáveis. Exemplifiquemos com o twitter (ele foi uma certa inovação!). Eu mesmo tenho um perfil do twitter que uso, vamos dizer, três vezes por semana. Lá eu acompanho os assuntos que me interessam. Tenho por volta de 700 tweets: quase todos são, na verdade, re-tweets de notícias interessantes, frases que exemplificam uma situação, manifestos: tudo isso acumulado em três anos de uso. Além da história da união de povos, organização de eventos, queda de ditadores… Isso tudo é bem importante.

Ah, eu espero ter me expressado direito. O espírito desse blog é “Tem sempre algo mais util a fazer; você não precisa disso, mesmo que os outros o digam”.

Obrigado pela leitura, stand by para outras inutilidades!